Caprichoso anuncia "Criação Que Vem da Alma" como tema do Bicampeonato

A Proposta do Conselho de Arte celebra a identidade do povo parintinense, os saberes ancestrais e a genialidade artística que fazem do Boi Negro uma expressão viva da cultura amazônica

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Roberto Sena

11/1/20266 min ler

Parintins (AM) – A arte que nasce das mãos, ganha forma na cultura e encontra morada na alma de um povo será o fio condutor da temporada 2027 do Boi-Bumbá Caprichoso. Com o tema “Caprichoso: Criação Que Vem da Alma”, o Boi Negro de Parintins propõe uma viagem pelas raízes, memórias, tradições e manifestações culturais que constituem a identidade parintinense e alimentam a genialidade artística do Festival de Parintins.

Desenvolvida pelo Conselho de Arte, a proposta reconhece o povo de Parintins como a grande origem da criação azul e branca. São as mãos de homens e mulheres, os conhecimentos transmitidos entre gerações, a ancestralidade indígena e africana, as influências dos diferentes povos que formaram a ilha e as experiências cotidianas da comunidade que dão vida à arte do Caprichoso.

A narrativa percorre elementos que fazem parte da memória afetiva e cultural da população: os quintais, as brincadeiras de infância, os saberes dos antigos, a fé, as manifestações populares, os encantados da floresta, os sons da natureza e as tradições que atravessam gerações. Um conjunto de vivências que se transforma em música, dança, pintura, escultura e espetáculo, revelando a força criadora de um povo que fez da arte uma expressão de sua própria existência.

Para o presidente do Conselho de Arte, Ericky Nakanome, o tema representa um olhar profundo sobre a origem da genialidade artística de Parintins e a importância de reconhecer quem constrói essa história.

“A criação do Caprichoso vem de dentro, da nossa alma e da nossa ancestralidade. É fruto da mistura de povos indígenas, negros e quilombolas, que construíram a identidade de Parintins. O boi representa o saber e o fazer do artista parintinense, essa criatividade que encanta e conquista por onde passa. É uma expressão da nossa cultura, da nossa história e do nosso orgulho. E vamos levar toda essa poesia e alegria para buscar o bicampeonato em 2027, se Deus quiser" destaca Ericky.

O presidente do Boi-Bumbá Caprichoso, Diego Mascarenhas, afirma que a temporada 2027 será conduzida pelo compromisso de fortalecer a identidade do Boi, valorizar os artistas e proporcionar ao torcedor uma experiência que traduza a dimensão cultural e artística da agremiação.

“Mesmo com pouco mais de 45 dias de gestão, já estamos dando início à temporada 2027. Estamos com muita força, união e uma equipe comprometida, formada por artistas, trabalhadores de alegorias, indumentárias e todos os segmentos do Caprichoso. Em 2027, vamos levar à arena a força de uma criação que tem origem na alma do povo de Parintins”, ressalta Diego.

A apresentação do tema também integra o calendário de celebrações e preparação para a nova temporada, reunindo a nação azul e branca em torno de mais um capítulo da história do Touro Negro. Para o vice-presidente Edwan Oliveira, a Festa será um momento de encontro, celebração e reafirmação do sentimento de pertencimento que une a comunidade ao Caprichoso.

“Hoje, estamos celebrando nossa história, reencontrando nossa gente e apresentando ao torcedor a inspiração que vai conduzir o Caprichoso em 2027. Queremos que cada brincante se reconheça nesse tema, porque essa criação também pertence a ele. O Caprichoso é feito de pessoas, de histórias e de amor. E é com essa energia que vamos iniciar mais uma temporada”, afirma Edwan.

SINOPSE DO TEMA 2027

CAPRICHOSO: CRIAÇÃO QUE VEM DA ALMA

É das mãos do povo de Parintins que nasce a nossa maior criação, estrela tecida pelas mãos de uma comunidade, esculpida pela floresta e mergulhada nas águas barrentas da Amazônia. Mãos calejadas pela labuta diária de mulheres e homens que resistem desde os primórdios nesse grande território, vivendo a filosofia sagrada do bem viver e produzindo cultura por saberes e fazeres que se modificam de tempo em tempo, de geração em geração.

Esse saber do povo traduzido num brinquedo coberto pelo escuro couro iluminado por uma estrela brilhante azul é a essência mais profunda de tudo aquilo que nos constitui enquanto comunidade. É a nossa ancestralidade dos tantos povos indígenas que criaram essa gigante floresta de negros que nutriram esse chão com suor da sua luta, são os sonhos de curumins e cunhatãs que plantaram seus anseios na esperança do tempo para se tornarem os grandes artistas do hoje.

São as memórias dos rostos cansados e das testas franzidas daqueles que muito brincaram com este boi no calor da fogueira, gingando entre fagulhas e cantando no aroma estonteante das madeiras em brasa.

São as idas e vindas, as chegadas e partidas, de barcos e navios que deixaram na ilha as muitas misturas dessa gente, nordestinos, italianos, japoneses, franceses, judeus, fortalecendo entre o fazer e o pensar outras formas de construir cultura.

É o mistério guardado no silêncio dos quintais, na beira do rio, nas trilhas e estradas que cortam os beiradões da ilha, onde os encantados nos observam escondendo a pura essência de ser parintinense.

É o murmúrio das aves noturnas, o coaxar dos sapos que vazam entre as brechas das paredes das nossas casas, nas orações e ladainhas no debulhar do terço ou no vibrar do atabaque, no alimentar da cura do tajá-onça com água de carne para a proteção da casa, essência mais profunda de nossa fé.

São as ensinanças herdadas de pais e avós que guardavam dentro de si os dias bons para o plantio, as melhores horas para a pesca, palavras para dizer e esconder, horários para guardar ou para viver, bênçãos proferidas na boca da noite, quando o ressoar do rádio anunciava a Ave-Maria.

É o ventinho gelado que atravessa o peito, correndo nos terreiros e ruas, ou varando entre as cercas da vizinhança para pegar manguinha ou jambo. É o brincar de manja-pega, manjacola, o embiocar do papagaio de papel quedado nas linhas de cerol, o correr com uma velha bola para acertar o rival no jogo de “cemitério” ou nas guerras de curi.

Todas as vivências dessa gente teceram no tempo um relicário que guarda a arte de Parintins num quente abraço de avó cheio de afeto, saudade, força e muito amor, a alma do ser parintinense, o flamejar mais potente da criação do povo de Parintins.

É dessa alma prodigiosa que emerge a arte de Parintins, das esculturas e pinturas de mestres, das toadas que embalam a musicalidade com o rufar africano, o vibrar do maracá indígena, o bater dos pés no chão, o dedilhar andino guardado nas notas do charango, a marcação e expressividade de uma dança que traduz a ancestralidade dos nossos corpos.

Essa genialidade gestada por um povo que fez da arte sua luta, impressiona cientistas e pesquisadores, arrebatando os corações do povo do norte do brasil e tornando-se a maior bandeira de revolução da Amazônia.

É o Caprichoso, o boi do povo, das lutas, do afeto, da ternura das crianças e da garra dos bravos paikicés, da batida forte do treme-terra e da leveza da poesia da toada. É a manifestação viva da essência de um povo. É o Caprichoso: Criação Que Vem da Alma.

Conselho de Arte do Boi-Bumbá Caprichoso

A Festa dos 113 anos

A comemoração dos 113 anos do Boi-Bumbá Caprichoso começou com o show dos toadeiros no palco do Curral Zeca Xibelão. O presidente Diego Mascarenhas apresentou o Conselho de Arte, artistas de alegorias e figurinistas para o triênio 2027-2029. A energia do Boi Caprichoso contagiou todo o Curral Zeca Xibelão e quem acompanhou por meio da transmissão da TV A Crítica. Coreografias, toadas e a performance dos itens repercutiram nas redes sociais. “O Caprichoso está com repertório incrível”, escreveu nas redes sociais o torcedor Mike Oliver.

O tripa Edson Junior, a Sinhazinha da Fazenda Valentina Cid, o tripa Alexandre Azevedo, a Porta-Estandarte Marcela Marialva, o Amo do Boi Caetano Medeiros, o apresentador Edmundo Oran e o Pajé Erick Beltrão foram aplaudidos pelo público durante suas apresentações. A Cunhã-Poranga Marciele Albuquerque evoluiu com a força de sua ancestralidade e, mais uma vez, mostrou por que é campeã do Festival.

O melhor levantador de toadas do Festival, Patrick Araújo, emocionou o público com a toada “Brinquedo Que Canta Seu Chão”, ao lado do Boi Caprichoso. O espetáculo azul e branco encerrou com Edilson Santana cantando toadas que o consagraram como levantador de toadas do Boi Caprichoso no início dos anos 2000.

Com informações da Assessoria de Comunicação do Boi Caprichoso